Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Zooms extra-muros

Excursões à prisão de San Pedro na Bolívia custam cerca de €28,5 euros, mais €5,70 se levar máquina fotográfica. As visitas são guiadas por um ex-recluso, pode-se comprar comida caseira e souvenirs. Em Janeiro deste ano rondavam as 50 por dia.
A (infeliz) ideia partiu de um britânico, que aqui ficou retido entre 1996-2000, por tráfico de droga.

O estabelecimento tem aproximadamente 1500 reclusos, na sua maioria, por crimes relacionados com a droga. Os presos têm de pagar as suas celas, havendo-as para todas as carteiras, e podem criar o seu próprio negócio.
A boa notícia da reportagem do
The Guardian, é que está a ser feita uma versão cinematográfica, a sair para o ano, que moverá atenções para este turismo prisional.


nota de navegação: senti vontade de registar outros temas, outro blog não faria sentido, ficarão aqui mesmo, arrumados com a label Zooms extra-muros. Na Variáveis Edificantes para já cabe tudo; na Vários Focos Outras Lentes, o património captado por outras pessoas fora do Médio Tejo.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

mater omnium

igreja da Misericórdia de Abrantes


[…] Segundo a tua religião, quem foi que criou o universo, perguntou o comandante, Brama, meu senhor, Então esse é deus, Sim, mas não o único, Explica-te, É que não basta ter criado o universo, é preciso também quem o conserve, e essa é tarefa de outro deus, um que se chama vixnu, Há mais deuses além desses, cornaca, Temos milhares, mas o terceiro em importância é siva, o destruidor, Queres dizer que aquilo que vixnu conserva, siva o destrói, Não, meu comandante, com siva a morte é entendida como princípio gerador da vida, Se bem percebo os três fazem parte de uma trindade, como no cristianismo, No cristianismo são quatro, meu comandante, com perdão do atrevimento, Quatro, exclamou o comandante, estupefacto, quem é esse quarto, A virgem, meu senhor, A virgem está fora disto, o que temos é o pai, o filho e o espírito santo, E a virgem, meu senhor, Se não te explicas, corto-te a cabeça, como fizeram ao elefante, Nunca ouvi pedir nada a deus, nem a jesus, nem ao espírito santo, mas a virgem não tem mãos a medir com tantos rogos, preces e solicitações que lhe chegam a casa a todas as horas do dia e da noite, […]

José Saramago, A Viagem do Elefante, p. 72.


Apesar de ocupar um lugar discreto tanto no antigo como no novo testamento, a Virgem, centrou o mundo cristão, motivando inúmeras invocações.
A Virgem do Manto é uma delas, também denominada Mãe Universal. Foi constante nas misericórdias, veiculando o princípio - todos os homens são filhos do mesmo Deus. Assim, foi representada com um manto que abriga e protege várias figuras, assumidas como grupos sociais da época. Uma interessante imaginária quinhentista para o significado de Igualdade.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

trem das cores

A franja na encosta
Cor de laranja
Capim rosa chá
O mel desses olhos luz
Mel de cor ímpar
O ouro ainda não bem verde da serra
A prata do trem
A lua e a estrela
Anel de turquesa
Os átomos todos dançam
Madruga
Reluz neblina
Crianças cor de romã
Entram no vagão
O oliva da nuvem chumbo
Ficando
Pra trás da manhã
E a seda azul do papel
Que envolve a maçã
As casas tão verde e rosa
Que vão passando ao nos ver passar
Os dois lados da janela
E aquela num tom de azul
Quase inexistente, azul que não há
Azul que é pura memória de algum lugar
Teu cabelo preto
Explícito objeto
Castanhos lábios
Ou pra ser exato
Lábios cor de açaí
E aqui, trem das cores
Sábios projetos:
Tocar na central
E o céu de um azul
Celeste celestial

Deixo-vos esta arte musicada enquanto o blog está em manutenção e aproveito para averbar sobre LINGUAGENS:
- Este senhor é o meu preferido deste género e período musical, porque não é dramático como a irmã, nem demasiado doce como o Chico, mas isto é apenas o meu gosto pessoal.
- O link apresenta o poema legendado em inglês. Como é que se traduz tal composição literária?
- A obra escultórica do mestre Charters de Almeida em Abrantes foi abundantemente “traduzida” na blogosfera e imprensa local.
Sobre estas traduções nada tenho a dizer, sobre a peça, a seu tempo.
Para já faz o que se espera da arte pública, interage com as pessoas, mesmo que seja evocando babel.

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

ausência de luz

Na cultura ocidental significa luto e tem conotações negativas, mas nem sempre é assim.
Neste post de teor pessoal pretende assinalar uma fase muito positiva, uma morte bem-vinda e feliz.
O Médio Tejo continuará, claro.

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

marginália medieval

Um dos temas que acho mais interessante é a ornamentação plena de simbolismo, criada para ficar à margem. Houve locais marginais por excelência. Os assentos dos cadeirais, onde descansavam os clérigos, ou qualquer ângulo arquitectónico.
Durante toda a Idade Média foi abundante, mas ganhou novo fôlego no reinado do nosso venturoso, D. Manuel I.
Corajosamente profana, a marginália manuelina, abandona os lugares mais recônditos, avançando, inusitadamente, para a luz.
É natural que ainda não tenha encontrado exemplares, nesta região não serão fartos, de modo que este post é em jeito de lembrete.
Refiro-me, concretamente, às representações em contexto irónico e sarcástico, para puxar o riso e, claro, apontar o dedo crítico e muito moralismo.
Abrir a boca e dar gargalhadas não era boa coisa e as gárgulas mostram-nos isso com aquelas bocas escancaradas.
Também os animais músicos, os porcos, as raposas e os ursos, que sabem tocar, informam-nos que o mundo está do avesso.
Já se encontrarmos um monge com asas de morcego estamos perante a falsa virtude.
Há também as fáceis de decifrar.
Um cão cobiçando um osso, a inveja.
Um homem nu olhando a sua imagem num espelho, a vaidade e a homosexualidade.
Homens e mulheres selvagens, o prazer sexual.
Outras, que apenas podemos conjecturar.
As sereias, podem ser símbolo carnal, ou não.
As máscaras que comem e vomitam vegetação, podem aludir ao ciclo do tempo, ou ao ciclo das colheitas.
Estas últimas, observam-se, numerosamente, no Convento de Cristo.

Bibliografia: Paulo Pereira, História da Arte Portuguesa, vol. II, pp. 139-148.

Sábado, 16 de Maio de 2009

juntando o antes, o agora e o depois

ouço e leio muitas vezes:
o desenvolvimento de Abrantes passa pelo turismo,
o desenvolvimento de Constância passa pelo turismo,
o desenvolvimento de Mação passa pelo turismo,
o desenvolvimento do Sardoal passa pelo turismo,
o desenvolvimento de Tomar passa pelo turismo,
o desenvolvimento de Vila Nova da Barquinha passa pelo turismo.
[...]
acredito que o desenvolvimento também passa pelo turismo.
então,
é tempo de pensarmos,
historiografar as nossas terras, cuidar do nosso património.

Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Do riso infantil ao riso adulto

Recordei as aulas de História da Arquitectura, onde ouvi falar do primeiro anjo que sorriu depois da Longa Noite. Está em Itália, foi esculpido em pedra, numa igreja, testemunhando a mudança de mentalidades. Esta ousadia angelical foi classificada de renascentista, porque rompeu com a convicção medieva, de que o riso tinha uma origem demoníaca.


[Imagem retirada daqui]


Voltei a ler O Nome da Rosa de Umberto Eco. Interessante ficção sobre a partilha e o monopólio do saber contido nos livros. A busca de um tratado sobre a boa natureza do Riso que, supostamente Aristóteles terá escrito.

Reflecti no significado do que é risível apresentado por Milan Kundera no
Livro dos Amores Risíveis. No valor da autenticidade.
Tudo isto e não me lembro do nome da igreja onde se encontra o tal anjo rebelde, aponto para Florença ou Siena... voltarei ao tema.

Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Divina maternidade

Nossa Senhora ocupa um lugar discreto nos Evangelhos canónicos. No universo das devoções populares, pelo contrário, ela assume notável relevância.
As várias fases da maternidade da Virgem, são dos temas que acho mais interessantes. Aqui a Igreja humaniza-se mas sem recorrer à dor.
Esta Virgem do Leite, é uma peça da escola de Coimbra, feita em pedra de ançã, nos meados do século XV.
Faz parte da colecção de arte sacra do Museu D. Lopo de Almeida de Abrantes.
A sua delicadeza, serenidade... dá vontade de fazer um texto cheio de adjectivos...

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Mercado das Artes

A propósito da grande responsabilidade da arte pública nos nossos dias e nos que hão-de vir...
O Município de Vila Nova da Barquinha , aguarda decisão comunitária, para a comparticipação de um amplo projecto onde se integra o Mercado das Artes.
O principal objectivo é a tematização do recente Parque Ribeirinho da vila, que acolherá dois núcleos de esculturas ao ar livre, um permanente e outro rotativo.


[imagem e informação retirada do boletim municipal de V. N. da Barquinha #24]

Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

historiografar arte

"Assume-se que a História é tendencialmente devoradora. Na realidade, todo o historiador sofre de um espécie de bulimia, tanto mais quanto o objecto da disciplina é em si mesmo um objecto ou conjunto de objectos, para mais dotados dessa qualidade a que nos habituámos a designar por beleza. Pôr o objecto mudo a falar pelo seu autor, pelo encomendador, pela sociedade que o viu ou fez nascer, pelos que sobre ele se debruçaram através dos tempos, é a função do historiador da arte. É esta vontade exaustiva tantas vezes frustada que causa esta incómoda bulimia."
[História da Arte Portuguesa, vol I, Dir. Paulo Pereira, p. 18]

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